Quando a ansiedade fala em várias línguas: uma abordagem integrada

A ansiedade é, provavelmente, a experiência clínica mais universal e, ao mesmo tempo, uma das mais mal compreendidas. Não é uma única coisa. Manifesta-se de formas muito diferentes de pessoa para pessoa e, na mesma pessoa, ao longo do tempo.

Umas vezes fala pela mente: preocupação constante, antecipação do pior, pensamentos que não descansam, sensação de ameaça sem objeto claro. Outras vezes fala pelo corpo: falta de ar, aperto no peito, tonturas, tensão muscular, alterações do sono e do apetite, queixas digestivas. A chamada ansiedade somática, que tantas vezes leva o doente primeiro ao médico de família ou às urgências do que ao psiquiatra. E há ainda a ansiedade que fala pelo movimento: inquietação, impossibilidade de estar parado, tiques motores ou vocais que se agravam sob tensão.

Frequentemente, estas formas coexistem. E, com muita frequência, a ansiedade não vem só: acompanha-se de depressão, com a qual partilha mecanismos e se alimenta mutuamente. Tratar uma ignorando a outra é meio tratamento.

Porque é que a mesma “ansiedade” pede tratamentos diferentes

Chamar “ansiedade” a todos estes quadros é útil para nos entendermos, mas insuficiente para tratar bem. Dois doentes com o mesmo diagnóstico podem ter cérebros que funcionam de maneiras muito distintas e responder de forma oposta ao mesmo fármaco ou à mesma terapia.

É por isso que, na nossa prática, não nos ficamos pela descrição dos sintomas. Procuramos perceber como é que aquela ansiedade se organiza em cada pessoa, aos três níveis em que ela existe.

A abordagem integrada: psiquiátrica, psicológica e eletrofisiológica

O que distingue o nosso modo de trabalhar é a articulação, num mesmo plano, de três olhares que habitualmente andam separados:

  • O olhar psiquiátrico — o diagnóstico clínico rigoroso, a compreensão da história da pessoa, a avaliação da eventual comorbilidade (depressão, entre outras) e, quando indicado, a medicação ajustada ao caso e não ao diagnóstico.
  • O olhar psicológico — a psicoterapia e o trabalho sobre os padrões de pensamento, emoção e comportamento que mantêm a ansiedade e sobre a história pessoal que a enquadra. É aqui que a pessoa aprende a reconhecer, compreender e voltar a ganhar controlo sobre o que sente.
  • O olhar eletrofisiológico — a leitura do funcionamento do próprio cérebro através do qEEG (electroencefalograma quantitativo). O qEEG permite mapear, de forma objetiva, padrões de atividade cerebral associados aos diferentes tipos de ansiedade distinguindo, por exemplo, um cérebro em hiperativação difusa de um padrão mais localizado ou identificando o substrato que a ansiedade e a depressão partilham.

Estes três olhares não funcionam em paralelo, mas em conversa. A eletrofisiologia informa a decisão clínica e psicoterapêutica; a clínica dá sentido ao que a eletrofisiologia mostra. O resultado é um plano de tratamento desenhado para aquele cérebro e para aquela pessoa — não para um diagnóstico genérico.

A neuroterapia: tratar treinando o cérebro

Deste modelo nasce um recurso terapêutico que valorizamos particularmente: neuroterapia (neurofeedback e técnicas afins).

A neuroterapia parte de um princípio simples e poderoso: o cérebro pode aprender a autorregular-se. A partir do que o qEEG revela, é possível treinar a atividade cerebral no sentido de ela produzir padrões mais estáveis e adaptativos, ajudando a reduzir a hiperativação ansiosa, a melhorar a atenção e o sono e a atenuar sintomas motores e somáticos, muitas vezes sem depender apenas do fármaco ou permitindo doses mais contidas.

É uma abordagem particularmente valiosa nos quadros de ansiedade na sua forma psíquica, motora ou somática, bem como nas situações em que a ansiedade e a depressão se sobrepõem, situação em que regular o funcionamento de base beneficia ambas.

O que isto significa para si

Se é um doente, significa que a sua ansiedade vai ser avaliada na sua forma concreta; isto é, a sua expressão na sua pessoa e não encaixada à força num molde. Significa (1) uma avaliação que olha para o que sente e para como o seu cérebro funciona e (2) um plano que combina, na medida certa, acompanhamento clínico, psicoterapia e, quando indicado, neuroterapia.

Se é um colega que nos refere um doente, significa que pode contar com uma avaliação integrada e com um substrato objetivo (o qEEG) que acrescenta ao seu próprio raciocínio clínico uma leitura eletrofisiológica do caso, acrescido de um plano articulado que lhe será devolvido de forma clara.

Tratar bem a ansiedade é, antes de mais, deixar de a tratar como se fosse sempre a mesma coisa. É esse o compromisso da nossa abordagem.